domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Em busca de um homem sensível", de Anaïs Nin

   

     Não sabia o que esperar de um livro com o título “Em busca de um homem sensível”. Este livro foi o meu primeiro contato com a obra de Anaïs Nin. Novamente me surpreendo. O livro é composto de crônicas e entrevistas que foram divididas em três subtítulos: “Mulheres e Homens”, “Livros, música e filmes” e “Lugares encantados”.
    O primeiro subtítulo fala sobre o ser mulher e a representação dela nos livros. Anaïs é escritora de livro erótica e defende nesta parte que o “amor e a sensualidade estão geralmente interligados” (p.09) Mostra que ainda no século XX, a mulher era julgada por revelar sua natureza de sua sensualidade. O que lembra a ela o acontecido com George Sand com Zola, por ela em:

 “uma noite de amor; com ela deu livre curso à sensualidade, ao partir ele deixou-lhe dinheiro sobre a cabeceira, para significar que a seus olhos uma mulher apaixonada era uma prostituta.” (p. 12)


    Este caso demostra quão machista não deixar a mulher também sentir prazer. Infelizmente pelo que Anaïs nos fala este problema em entender que a mulher pode sensual e amar não faz dela inferior nem de ser prostituta.
   Anaïs Nin conta que os livros dela eram julgados como sendo pornográficos e ela nos mostra vários trechos classificados como pornográficos e explica que o que faz é escrever histórias eróticas. A diferença entre pornografia e erotismo para a autora é que: “(...) a pornografia trata sexualidade de uma maneira grotesca, rebaixando-a ao nível animal. O erotismo desperta a sensualidade sem precisar rebaixá-la.” (p. 14) A escrita de histórias eróticas para Anaïs Nin não deve generalizar a mulher, pois existem diversos tipos de mulheres e os escritos eróticos dos homens não “satisfaz às mulheres”, por terem “descrições explícitas, por uma linguagem crua.” (p. 12) Anaïs compreende as obras eróticas feitas por homens cria uma ideia de um “caçador” que para a mulher se torna o “estuprador”. Como solução ela diz que “é tempo de escrevermos a nossa; nossas necessidades, fantasias e comportamentos eróticos”. (p. 12)
   A autora defende nesta primeira parte para que as mulheres deixem de ser passivas e que se libertem. Assim como ela descreve as mulheres de seus livros que reenvida a uma “nova mulher". Ela elogia Violette Leduc, Caitlin Thomas, Dylan Thomas por serem escritoras que escreveram abertamente sobre suas necessidades e experiências. Percebo o quão importante é ler livros de mulheres. Se ficássemos presas e presos a escrita predominante (de escritores homens) iremos cometer o erro de não dar a voz para outras perspectivas e compreensões da vida diferentes.
   Ela finaliza esta primeira parte falando o que seria um “homem sensível”. Anaïs descreve-o alguém que oferte:
 “amor sem egocentrismo, sem exigências, sem restrições morais. Um amor que não definisse as obrigações das mulheres (...)
   Um amor equitativo. Todo novo. Como um país novo. Não se pode ter ao mesmo tempo dependência e independência. Podemos alterná-las, de tal modo que elas cresçam sem entraves nem obstáculos. O homem sensível tem consciência das necessidades das mulheres. Ele procura deixa-la existir por si mesma.” (p. 51)

    A segunda parte, Anaïs Nin nos indica livros como “A vontade de criar” de Otto Rank, “O teatro completo, de D. H. Lawrence”, Djuna Barnes, “A academia do Suicidio”, de Daniel Stern, “Miss Macintosh, My Darling”, de Marguerite Young, onde ela nos conta suas experiências ao ler estes livros. Indicando também ouvirmos Edgar Varèse e vermos “Un chant d´amour”, de Jean Genet, e os filmes de Ingmar Bergman.
   Na terceira parte, ela conta para nos sobre lugares que a encantaram como foram: Fez, Marrocos, Bali, Port-Vila. Ao mesmo tempo que se apaixona pela beleza destes lugares, ela critica a ocidentalização dos espaços. Em Marrocos relata que se modificou pelo excessivo de turismo europeu fez com que crianças pedissem esmola e traficassem drogas para turistas. Anaïs criticou esta invasão da cultura ocidental em Marrocos, porém em Port-Vila não aconteceu isto por justamente quererem preservar as tradições e costumes locais.
   A destruição ocasionada pelo ocidente de culturas com finalidade de “homogeneizar” trazendo padrões outros em lugares onde existem toda uma compreensão de vida que é modificada para se “normalizar” (ocidentalizar). Como foi as outras argumentações para colonizar e destruir povos ditos “selvagens” e “bárbaros”. Lembrando que o discurso cria uma hierarquia entre aqueles que tem voz e são ouvidos. Isto me remete o conflito existente na França com a presença de muçulmanos. Pretendo me aprofundar sobre isto talvez na próxima semana.


    A última subdivisão desta terceira parte nos conta uma memória linda que teve com uma senhora turca. Ela não sabia se comunicar em outra língua a não ser a dela, a senhora necessitava de ajuda para chegar a Paris para reencontrar com sua filha. Esta última história me fez abraçar o livro pelo dia inteiro após lê-lo. 
  Estou feliz por ter lido um livro de uma mulher corajosa o suficiente em discutir temas tão polêmicos. Realmente é um livro inspirador. 

4 comentários:

  1. Muito bonita sua resenha Jéssica! Me inspirou a ler o livro!

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  2. Estou estudando as obras dessa maravilhosa mulher. E sim, a escrita dela é extraordinária. Parabéns pela resenha, a descreveu maravilhosamente.

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    1. Que bom que alguém vai ter o cuidado em pesquisa-lá. Vou querer ver sua pesquisa depois, pois a achei tão fascinante! Você me indicaria algum livro dela?
      Desejo um ótimo trabalho!
      Beijos

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