domingo, 20 de abril de 2014

"Amor nos tempos de fúria" de Lawrence Ferlinghetti

     
 Este livro foi uma grande surpresa para mim, pois fui em busca de apenas um romance que tinha o contexto das Revoltas de Maio de 1968, na França, e li um romance que falava de valores morais dos tempos modernos. O livro foi dedicado para Fernando Pessoa cuja obra "Banqueiro Anarquista" inspirou Ferlinghetti em produzir este romance.
      O "Banqueiro Anarquista" trata-se de uma conversa de dois amigos sobre o posicionamento de um deles, que é banqueiro e anarquista. Este banqueiro define o anarquista como: "um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente — no fundo é só isto. E daí resulta, como é de ver, a revolta contra as ficções sociais que tornam essa desigualdade possível." (PESSOA, Fernando. "Banqueiro Anarquista". p. 7) 
     Esta definição do banqueiro anarquista de Pessoa define em muito o banqueiro anarquista de "Amor nos tempos de fúria". O banqueiro de Ferlinghetti se chama Julian Mendes, que é um português com "talvez 55 anos" (p. 7), que participou em sua juventude de um pequeno grupo anarquista que lutou contra o regime de Salazar, e ao longo do livro, ele desenvolve a teoria de como ele é anarquista e porquê ele é banqueiro. É interessante ver como as reflexões de Julian sobre a sua geração, que passou pelo regime totalitário de Salazar, reage quanto a esta esta nova geração de pessoas que fazem parte das revoltas de ruas de 1968, na França.  Isto mostra a contraposição destas gerações: enquanto a geração de Julian se apresenta desencantada, as novas gerações tem esperança por melhorias através de suas revoltas.
       O livro "Amor nos tempos de fúria" começa em uma noite em Montparnasse, quando Julian conheceu Annie, que logo se fascinou por ele, apesar de ele parecer meio distante e introspectivo. Ela não se aproximou dele nesta noite, mas em uma manhã ela o encontrou saindo do metrô Odéon e foram tomar um café no Café Mabillon, e neste encontro, por acaso, eles se encantam um pelo o outro. É a partir daí que começa a trama do relacionamento deles. 
     Annie era uma professora de Arte da Escola de Belas Artes de Paris que se mudou a convite de se integrar ao corpo docente da Escola de Belas Artes por admiradores de sua arte de princípio "expressionista abstrata, depois  como figurativa, seguindo a geração de Motherwell e de Kooning e Kline. Mas tinha rompido com todos eles e ido a Paris (...)" (p. 14). Esta tinha ido para Paris com um sonho que esquecera. Annie "sempre quisera escapar, e conseguiu, Paris a libertou com havia libertado tantos outros, e ela ficou e ficando - dez anos, quinze anos já (...)" (p. 15) e se tornou adepta do amor livre
       Julian e Annie, assim como Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, são representantes de idealistas que já são velhos e compõem uma geração que já se passou. O conflito que envolve Annie e Julian pertence a esta geração passada que precisa se posicionar a respeito das revoltas destes novos idealistas. As revoltas de 1968 remetem as utopias românticas do século XIX.
     O interessante do livro é que este traz uma discussão muito latente nos dias de hoje, assim como em 1968, no que diz respeito às ideias de um mundo melhor, o ato de concretizar seus sonhos e entender o  que é o amor e arte. O livro é repleto de referências de escritores, artistas e filósofos para embasar as conversas de Annie e Julian.
       Durante a leitura do livro encontrei duas músicas que acredito resumirem os conflitos principais desta obra que são o amor de Annie e Julian e os ideais de 1968. 
      O amor de Annie e Julian parece sempre flertar entre o interesse intelectual e o corpóreo, porém, estes são livres quanto aos seus posicionamentos e também no seu relacionamento. Vejo que este amor pode ser representado pela música "I want you, but I don´t need you" de Amanda Palmer, pois, ao mesmo tempo, eles se gostam, mas este relacionamento não deve torná-los dependentes um do outro, e não julgam o que o outro acha ser certo e o que faz da vida.
      A outra música que representa os ideais de 1968 é "Até Quando Esperar" de Plebe Rude, que questiona a destribuição da riqueza, dos poderes, da hierarquia social e busca transformar o mundo em um lugar mais igualitário.

  Acredito que a junção destas músicas formam o enredo do livro, que acredito que mostra a proposta libertária dos personagens de romper as amarras das "ficções sociais". Porém, eu espero que quem se interessar não fique preso às minhas observações, pois talvez consiga ter outro entendimento sobre o enredo do livro.

4 comentários:

  1. Oi Jéssica, me interessei bastante pelo livro. O tema universal das diferenças monetárias entre as classes sociais. ;=) Obrigada e beijos

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    1. Oi Raquel! Desculpa a demora em respondê-la! Sim, este livro foi uma surpresa para mim. Ele tem um jeito tão leve para falar de uma época bem agitada no mundo. Se for ler, quero muito que post algo no seu blog! <3
      Muito Obrigada por visitar aqui!
      Um beijo sua linda!

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  2. Olá, primeiramente gostaria de elogiar sua dissertação sobre o livro, sou um grande apreciador da literatura beat e inclusive este é um dos meus livros favoritos, acho que você acertou bem em tratar a dualidade entre o amor de ambos e seus posicionamentos sobre os fatos que se decorriam. A leitura desse livro é bem tranquila e eu sempre recomendo ele como porta de entrada a quem quer se aproximar desse tipo de literatura mais intelectual e profunda, novamente está de parabéns, bjus beats...

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    1. Olá Pedro! Nossa, muito obrigada! Não conheço muito sobre literatura beat, mas este livro foi uma surpresa muito boa. Você poderia me indicar outras livros da literatura beat?
      Beijo

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